No Recife, silos desativados se transformam em apartamentos

Silos de grãos que estão desativados vão virar 251 apartamentos em um projeto no bairro do Recife, na região portuária da capital pernambucana.


O retrofit será realizado pela construtora Moura Dubeux e tem início previsto para o segundo semestre. A obra deverá levar três anos.
Dois prédios usados para armazenar os grãos, um feito de cilindros e outro retangular, vão passar pela requalificação. Como a área é tombada, as construções não podem ser derrubadas.


"Você não pode demolir e construir, mas pode fazer algumas mudanças", afirma Eduardo Moura, diretor de incorporação da construtora.


Os silos, que são ocos por dentro, vão ganhar lajes e janelas, para formar os imóveis. Os apartamentos terão de 20 a cerca de 70 metros quadrados e vão custar entre R$ 180 mil e R$ 500 mil.


Já está acertada uma parceria com a plataforma de locação de curta e média temporada Housi, que terá alguns dos imóveis em seu catálogo.
As duas construções são conectadas por uma passarela, que será mantida.


"Vamos fazer com que o rooftop dos dois prédios sejam usados juntos, possibilitando convívio entre os empreendimentos, vai ter uma energia muito boa, com piscinas de borda infinita", diz Moura.


O projeto é parte de um empreendimento maior, o Moinho Recife Business & Life. Além dos prédios residenciais nos silos, que se chamarão Silo 215 e Silo 240, a empresa Revitalis, formada pelos grupos Petribu, Tavares de Melo e Moura (que não é a Moura Dubeux), vai reformar outros prédios no entorno, para transformá-los em lojas, escritórios, coworkings, restaurantes e também em um edifício garagem.
O bairro do Recife, histórico, já vem passando por mudanças nas últimas décadas.


Como conta Tomás de Albuquerque Lapa, professor do programa de desenvolvimento urbano da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), a região marca o início da cidade, mas teve suas construções demolidas no início do século passado e substituídas por novas, de estilo eclético, em uma iniciativa de modernização da cidade.


O local era um distrito comercial, mas perdeu atratividade para bairros vizinhos ainda na primeira metade do século 20 e virou ponto de prostituição.


Uma revitalização foi orquestrada nos anos 1990, que culminou em 2000 na criação do Porto Digital, parque tecnológico com foco em negócios de tecnologia da informação e economia criativa, e no Museu do Cais do Sertão, inaugurado em 2014. Hoje, é ponto turístico.


O Marco Zero de Recife, de onde parte o Carnaval na cidade, fica a poucos metros do empreendimento, que está cercado de outros pontos históricos e turísticos, como a primeira sinagoga das Américas e o Museu do Frevo.


Nesse processo, a oferta de habitação no bairro foi praticamente zerada, com exceção da comunidade do Pilar, que tem casas precárias e ocupa uma área vizinha aos silos.


De acordo com Moura, o público-alvo para os apartamentos são pessoas que trabalham no Porto Digital e não encontram opções de moradia no bairro, além de investidores interessados em alugar imóveis para esses profissionais.


"O projeto me parece muito interessante, na medida em que propõe justamente habitação, uma grande carência local, que é o que garante vida, permanência e apropriação dos lugares pelas pessoas", afirma Lapa.


Porém, como lembra o professor, essa oferta não vai atingir aqueles que já vivem na comunidade. "É um empreendimento privado, eles não vão fazer casa popular para pessoas de renda baixíssima", diz. Para ele, a única forma de fornecer habitação popular na região seria com parceria do poder público, que fornecesse incentivos a esse tipo de construção.


"Várias empresas do Porto Digital têm programas sociais de inclusão dessa população, mas não na medida que seria necessário para que ela tivesse a possibilidade de adquirir sua própria moradia", diz.


Segundo Moura, a obra vai revitalizar galpões que estão fechados, sem nenhum uso social, e gerar empregos durante a construção. "Só pela transformação do local, já é uma ação social tremenda."


O retrofit será bancado com recursos de um condomínio fechado, modelo no qual um grupo se une para custear a obra e depois recebe imóveis em troca, que está sendo prospectado pela Moura Dubeux em sua base de clientes.


Por ser um projeto de requalificação, não é possível seguir o modelo tradicional das construtoras, com lançamento dos imóveis e financiamento da obra. "Não tem financiamento bancário para essas recuperações", afirma Moura.

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